Paula e sua transformação (entrevista)

Nem só de CD vive esse blog, atualmente. Estamos aumentando o alcance.. abrindo portas, janelas, basculhantes e portinholas.. Tudo graças ao nosso grupo no “Zap”.

Paula entrou no nosso grupo do What’sApp causando impacto.. Pois já foi se apresentando como trans, e esbaldando simpatia. As meninas do grupo então atacaram a Paula de perguntas e eu vi que isso poderia dar um bom post para o blog. Pedi a Paula que não respondesse mais nada e se topava uma entrevista para o Blog Crossdresser… Ela topou.. ai foi só pedir a Drucilla Polythene Pam (Dru ou Poly para os úntimos), que a entrevistasse e deu nisso aqui. Uma fantástica história, de uma jornada.. com altos e baixos.. emocionante… vale conferir

Blog Crossdresser-Dicas:  Paula vamos começar com as perguntas básicas, se você não se incomodar em nos dizer… Idade? Cidade em que mora? Profissão? Há quanto tempo está transicionando?

Paula: Bom tenho 51 anos… Moro em Peruibe sp… Sou corretora de imoveis mas estou aposentada. E estou me transacionado há 7 anos.

Blog Crossdresser-Dicas:  Então, vc começou a transicionar com 44 anos. Mas me conta, quando foi que vc tomou consciência da necessidade de transicionar? Foi muito tempo antes disso? Como foi o processo?.

Paula: Desde pequena eu sempre gostei de vestir roupas das minhas irmãs e da minha mãe. A primeira vez que me pegaram eu devia ter uns 5 ou seis anos, virei motivo de gozações entre a minha mãe e vizinha amiga dela, a partir daí parei um pouco para começar de novo em pouco tempo depois mas sempre trancada no banheiro.

Blog Crossdresser-Dicas:  Suponho que a partir daí vc passou a ter mais cuidado para não ser vista, né?.

Paula: Muito. Cresci acreditando que estava fazendo algo muito errado e recriminava a mim mesma e me sentia mal depois de todas as vezes que me montava. Não queria ser gay, não queria dar essa decepção para meus pais.

Blog Crossdresser-Dicas:  Mas vc passou mesmo a fazer isso com frequência? Pode me dizer com que frequência mais ou menos?.

Paula: Praticamente quase todas as vezes que ia tomar banho e via roupas sujas delas no banheiro.

Blog Crossdresser-Dicas:  Pois é… Mas ao longo da vida vc teve experiência com homens ou pensou de alguma forma que uma coisa estava ligada a outra e que seria necessário se relacionar com homens?.

Paula: Sempre tive mais amizade com meninas pois com os meninos eu vivia apanhando. Então comecei a procurar coisas de menino e pedi para meu pai me colocar nos escoteiros. Eu não tive nenhuma experiência com homens nessa época, mas brinquei muito introduzindo várias coisas, como cabo de escova, cabo do rodo, manqueirinha de chuveiro.  Mais tarde quando fui me alistar, fui voluntária, eu buscava uma masculinidade, embora nessa época pouca gente imaginava que eu sentia atração por homens.  Na época da escola sofri muito buling e com isso aprendi a esconder.  Com 23 anos prestei um concurso e entrei na justiça federal. Trabalhando lá comecei a gostar muito de um colega de trabalho e tentando fugir disso. Atirei meu carro num poste.

Blog Crossdresser-Dicas:  Vc tentou se matar?.

Paula: Isso mesmo essa vez batendo num poste e seis meses depois tomando um monte de remédios para bronquite. Após essa última vez fui parar numa igreja evangélica, e comecei a buscar uma “cura” gay. Nessa época eu já morava sozinha. Na igreja conheci uma moça, que tinha um monte de problemas em casa , e casamos rapidamente. Ela querendo sair de casa e eu fugir disso tudo..

Blog Crossdresser-Dicas:  Nessa época, vc tinha alguma noção da condição trans?…. Confundia isso com homossexualidade? … Como era?…. Teve, em alguns momentos na vida, a ideia de transicionar. Passava isso pela sua cabeça ou não?…

Paula: Não eu não tinha noção eu achava que era um gay e iria acabar virando um travesti, eu mesma tinha um monte de preconceitos e não queria isso para mim, cheguei a comprar e depois jogar fora um monte de roupas femininas para mim.

Blog Crossdresser-Dicas:  Que idade vocês tinham?

Paula: Eu estava com 25 e ela com 18.

Blog Crossdresser-Dicas:  Qual era a igreja? Eles tinham mesmo uma proposta de cura gay? E vc declarou lá que estava interessadx nisso?

Paula: A igreja era a igreja pentecostes avivamento da fé, eles não tinham essa proposta e nunca me abri com ninguém, eu buscava uma cura com Jesus e oração. E buscando em vigílias pelas madrugadas

Blog Crossdresser-Dicas:  Essa moça foi o seu primeiro relacionamento?

Paula: Antes dela eu sai uma vez com uma prostituta, sendo que não rolou pois eu brochei, e um tempo depois com uma senhora já experiente que trabalhava na justiça comigo, essas duas vezes foram as únicas experiências antes do casamento.

Blog Crossdresser-Dicas:  E até então, vc não tinha se relacionado com homens? Chegou a se relacionar depois? Vc é bissexual?.

Paula: Não, me relacionar com homens foi muito tempo depois já quando descobri que a minha mulher na época estava me traindo. 7 anos após me casar adotamos uma menina.

Blog Crossdresser-Dicas:  Escolheram adotar pq não havia sexo na relação? (daquelas perguntas chatas que eu falei rs).

Paula: Sim tínhamos relações mas ela tinha endometriose e com isso uma gravidez era difícil. E tb por apesar de sentir atração por mulher, para mim ser ativa era mais uma obrigação que prazer. Era como se fosse uma coisa que eu tinha que fazer, apenas isso. Para conseguir uma ereção, eu fantasiava muito na minha cabeça. Em 2007 eu fui trabalhar numa central de rádio táxi, e lá tinha corridas só até umas duas da manhã, e após isso eu ficava navegando na internet até as 7 que era a hora que ia embora.  E conheci as crossdresser. Comecei a ler os testemunhos e ver muita relação comigo com o que eu sentia e acontecia comigo.  Nessa época me filiei ao Brasil Crossdresser Clube,. Foi quando escolhi o meu nome. Já nessa época contei para a minha esposa na época que a princípio aceitou.
Nessa época li uma reportagem numa revista de um casamento lésbico que teve em sp, li a matéria e gostei muito, e procurei elas no orkut, que era o que tínhamos na época né. E consegui encontrar. Não foi nada fácil não.

Crossdresser Brasil

Comecei falando que havia visto umas reportagens e li vários depoimentos sobre crossdresser, e expliquei para ela o que era, ela disse que cada um com a sua loucura rsrsrs. Aí eu perguntei “e se eu fosse uma crossdresser” ela disse que tudo bem, no que eu respondi que eu realmente era mesmo.
Na época havia em sp um studio, aonde as crossdresser iam se montavam com a ajuda a dona e todos os acessórios dela. Passava algumas horas lá aí se desmontaram pagavam e iam embora. Elas faziam encontros periódicos, em que se reuniam se montavam bebiam e comiam e iam embora. E eu fui em vários encontros desses e logo na primeira vez que fui levei a minha ex. Ela tinha medo que numa dessas rolasse alguma coisa a mais, mas era apenas para nos confraternizar e passar algumas horas agradáveis.  Só que para mim, que no começo satisfazia, essas reuniões começaram a ficar vazias para mim, eu queria algo mais muito mais, não queria que isso fosse apenas por algumas poucas horas.

Blog Crossdresser-Dicas:  E como foi lá na primeira vez com a sua ex?. Vcs chegaram como um casal e, em algum momento, ela ficou em algum lugar esperando enquanto vc se montava? Foi o que imaginei… rs.

Paula: Não ela mesmo me ajudou a me montar, a escolher as roupas que ia por.

Paula: Logo em seguida comecei a trabalhar como corretora de imoveis. No começo em SP mesmo, mas depois fui fazer um loteamento no interior de SP, na época morávamos em Osasco. Nesse loteamento eu ficava lá 5 dias e vinha para casa e ficava dois dias.Foi nessa época que descobri que ela estava tenho um caso com um conhecido nosso. Encostei ela na parede e ela me respondeu que foi mais uma necessidade de sentir que conseguia conquistar com um homem de verdade e me pediu perdão. Eu dei uma outra oportunidade para ela, mais uma vez me livrei de tudo o que eu tinha de feminino e me afastei do crossdresser. Mas fiquei de olho nela. E peguei novamente. Nessa época eu estava trabalhando em Bragança Paulista, instalei um programa espião no meu computador em casa que não aparecia nada, mas eu via tudo o que faziam na internet. O programa ia me enviando tudo para o meu celular. E quando eu vi em Bragança a conversa que ela estava tendo pela internet. Tanto com homens na maior safadeza e com amigas dela aonde ela contava tudo. Eu peguei um ônibus para ir para sp, estava muito nervosa e chorando muito. Um cara no ônibus foi conversando comigo a viagem toda, chegando em sp eu ainda muito nervosa, ele me chamou para tomar umas cervejinhas para acalmar . E eu fui. Só que de lá fomos para um hotel simples perto da rodoviária mesmo e essa foi a minha primeira vez com um homem. No dia seguinte fui para casa com a cabeça a mil.. Ela não trabalhava e estava em tratamento de saúde, e por causa disso resolvi dar um tempo mas ficamos apenas como amigos a partir dai. Dois anos depois arrumei um emprego para ela no Walmart. Depois dela já contratada, sentei com ela e falei que estava disposta a lutar pelo nosso casamento, ela respondeu que achava que não valia a pena. Eu respondi que tanto eu quanto ela tinha que tentar se consertar, que não adiantava nada eu lutar sozinha que ia ser como dar murro em ponta de faça e nos separamos. Disse ainda que desejava que ela fosse muito feliz, e que eu tb iria procurar a ser…E foi aí que comecei meu tratamento hormonal.

Blog Crossdresser-Dicas:  A decisão foi súbita, logo após a separação? Vc procurou endocrinologista, psicólogo?.

Paula: De transição não, mas uma vez ainda em Bragança, eu saia montada para dar uma volta de carro, e até numa dessas meu carro deu problema, eu fui arrumar e um rapaz que estava passando de moto parou para me ajudar rsrs.

Blog Crossdresser-Dicas:  Uau!… Conta como foi isso..

Paula: Depois que passei a noite com o rapaz, eu procurei um psicólogo, mas o tratamento hormonal, no começo foi por minha conta mesmo, logo em seguida da separacao. Eu estava com um carrinho velho, mas o carro estava muito bonito, na região dos lagos, que é um point da moçada de lá, e quebrou o cabo do acelerador, e eu fui fazer uma gambiarra para ir embora, era duas da manhã, não tinha outro jeito né ? Eu estava de vestido longo, uma peruca comprida loira de salto alto e debruçada em cima do motor né? Ele passou por mim e voltou logo em seguida, nessa hora eu gelei. Ele veio se ofereceu para ajudar, e quando me levantei que ele percebeu, mas continuou me tratando super bem, ele mesmo terminou a gambiarra. Se despediu com um beijo, falando que eu já iria conseguir ir embora.

Blog Crossdresser-Dicas:  Foi sua primeira aparição pública, né?.

Paula: Isso mesmo. Mas a partir daí começou a ficar mais frequente. Isso lá em Bragança. E depois que me separei fui para Praia Grande com várias amigas crossdresser e uma trans, aonde enquanto estávamos na baixada ficamos no tempo todo femininas indo no shoping e todos os lugares. Só na praia que eu ainda não ia. Não me sentia segura para colocar um biquini.

Blog Crossdresser-Dicas:  Então Paula, pelo que entendi, vc vinha, desde a infância, lutando contra você mesma e um dia vc virou o jogo… O fim do seu casamento foi o episódio que marcou essa virada?.

Paula: Isso mesmo, a partir da minha separação nada mais me segurou, e comecei a minha transição.

Blog Crossdresser-Dicas:  E vc tinha urgência, né? Vc chegou a me dizer uma vez que teve problema no trabalho por conta da transição. Como foi isso? Vc estava perto de se aposentar já? E a aposentadoria tb foi um fator que contribuiu?.

Paula: Eu me aposentei cedo por invalidez. Minha transição foi lenta e gradativa. Primeiro na intimidade em casa. Depois comecei a dar umas saídas que com o tempo foram ficando mais frequente até não suportar mais usar qualquer peça masculina, e foi quando me assumi profissionalmente também. Um pouco antes havia trocado de empresa e quando entrei nessa antes de tudo já me abri com a gerente de vendas e ela disse que por ela não tinha problemas.

Blog Crossdresser-Dicas:  Mas por mais gradual que seja, tem um momento em que vc deixa de usar roupas masculinas e assume as femininas, não é? Esse momento de assumir vestuário feminino, especialmente depois dos 40, é que gera muita curiosidade no imaginário das pessoas..

Paula: Ahhhh com certeza kkkk.

Blog Crossdresser-Dicas:  Pra ficar bem didático rs: vc estava vestido como homem quando conversou com a gerente e no dia seguinte, apareceu no trabalho de vestido e maquiagem?.

Paula: Não, eu estava de homem ainda. E continuei ainda assim por uns 3 meses para só aí me assumir mesmo.

Paula: Mas nessa empresa depois de 3 semanas que me assumi mesmo, o RH me procurou falando que eu não podia estar lá assim, que eu tinha que estar conforme meus documentos e que não poderia usar o banheiro feminino, e como la não tinha banheiro para “deficientes” eu tinha que usar o masculino mesmo.

Blog Crossdresser-Dicas:  Certo…. E o dia D?.

Paula: Quando me assumi só avisei a minha gerente e no dia seguinte fui de vestido sandália e maquiada. Me produzi por completo. Já nessa época meu cabelo já estava crescendo e não usava mais peruca. Na empresa todos me trataram muito bem. Alguns ainda brincaram falando que tinha alguma coisa diferente se eu havia mudado o cabelo, um outro veio me.perguntar se tudo aquilo era para deixar de usar gravata, por isso quando o RH veio me procurar fiquei supresa.

Blog Crossdresser-Dicas:  Vc se sentiu insegura de alguma forma nesse momento? … E a reação das pessoas? Suponho que vc tinha algum tipo de suporte mental pra lidar com isso… Mas como foi?.

Paula: insegura a gente sempre fica. Não tem como não ficar, eu estava suando frio embora estivesse um calor de quase 40 graus. Mas me eu já estava decidida e fui assim mesmo, e me trataram super bem. Isso foi em 2013

Blog Crossdresser-Dicas:  Mas em que ano foi isso? A lei coíbe esse tipo de atitude do RH hoje em dia, não?.

Paula: Sim, eu podia entrar com um processo mas iria prejudicar a minha gerente que tentou me ajudar e eu não quis isso, aí sai.

 Blog Crossdresser-Dicas:  Tenho a impressão de que a transição, por mais que seja gradativa, tem meio que uns pontos cegos. Por exemplo, quando vc foi conversar com a gerente e assumiu a transgeneridade, no mesmo momento, vc revelou a ela seu nome feminino e quis ser tratada assim a partir daí?…. Além disso, temos relacionamentos sociais em diversos níveis. Aconteceu contigo de assumir isso em alguns ambientes primeiro e em outros depois?.

Paula: Minhas irmãs quando souberam, uma disse que sempre soube, pois percebia que eu mexia nas roupas delas, a outra disse que finalmente eu havia saido do armario.

Paula: Enquanto eu estava indo de homem não exigi que me tratassem no feminino não, só pedi isso mesmo quando deixei a paula viver de vez. E sim a transição é gradativa então vc começa a ir em uns lugares e vai aumentando aos poucos e por último foi no trabalho.

Blog Crossdresser-Dicas:  E críticas negativas, vc recebeu? Algum amigo ou parente duvidou que vc estivesse fazendo a coisa certa?.

Paula: Ah claro, sempre tem alguém, né? No meu caso foi apenas uma tia que eu gosto muito que disse que eu não a procurasse mais que ela não aceitava isso

Blog Crossdresser-Dicas:  Que chato! E ela não voltou atrás?

Paula: Não soube mais dela. E nem quis saber.

Paula: E meus pais por já estarem com a saúde muito debilitada resolvemos não contar para eles, então são os únicos que não sabem.

Blog Crossdresser-Dicas:  Que importância tem o fator passabilidade pra vc? Falo isso por dois motivos: o primeiro é que muitas meninas acham que é importante ser “passável” até pra evitar agressões; por outro lado, na nossa idade, é um pouco mais difícil passar desapercebida.

Paula: Sim na nossa idade fica muito difícil conseguir uma possibilidade completa. Se vc tiver dinheiro pode até ser com cirugias plásticas né. Mas eu não me incomodo com isso não, eu quero é estar bem comigo mesma. Apenas isso.

 Blog Crossdresser-Dicas:  Qual é sua altura? Vc é uma trans que chama atenção na rua?.

Paula: Sim chamo muito a atenção, kkkkk Sou alta, tenho 1:80 e adoro saltos kkkk e além de tudo estou obesa.

Blog Crossdresser-Dicas:  E a quantas anda esse assunto com relação à sua ex mulher e à sua filha?

 Paula: Com a minha ex somos amigas atualmente, mas não muito próximas pois perdi a confiança nela. Com a minha filha está bem, ela demorou a me aceitar como sou mas estamos bem.

Blog Crossdresser-Dicas:  Vc toparia depois uma entrevista coletiva no grupo? Coisa rápida mesmo. As meninas, já conhecendo a sua história, fazerem algumas perguntas de acordo com a curiosidade delas???… Naquele mesmo horário que todo mundo costuma estar on..

Paula: Por mim tudo bem

Então pessoal essa foi a promeira entrevista, em breve, teremos outra no nosso grupo do What’sApp. Quem tiver interesse, pode pedir para ser adicionada lá. Mas existem regras, não entram homens cis héteros. Somente CDs, Sissies, Trans e Mulheres.

Fiquei feliz com a entrevista..

Paula, obrigada por nos contar sua história… e com isso, com certeza poder ajudar várias pessoas que estão nessa ángustiosa trajetória, sem saber ao certo o que são, para onde podem ir e como.. foi de imensa valia.. Muito obrigada.

Obrigada Poly, pelas excelentes perguntas

Ms Tery

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